O nosso não-romance quase perfeito

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Estava fuçando nos meus livros de romance, daqueles que você nunca gostou, e me deparei com uma frase: “Comecei a te amar no dia que te abandonei”. Este autor, que nem conheço, sabe exatamente o que está falando. Disto eu entendo, porque o nosso amor estava fadado a ser do tipo que machuca, que precisa ser arrastado para debaixo do tapete antes que cause cicatrizes maiores.

Lembro da primeira vez que nos vimos, que toquei seu rosto como quem dissesse “eu sei que você vai ficar por aqui do meu lado”. Mas a verdade é que eu estava querendo decorar os seus traços por inteiro, o seu sorriso fácil, pois achava, na verdade, que nem te veria mais sentado ali ao meu lado daquele jeito. Eu não era o tipo de garota que você procurava. Eu ria sem jeito sobre seus planos porque não conseguia enxergar os meus encaixados neles. Por mais que eu tentasse encontrar um espacinho para toda a sua aventura, os meus pés no chão e minha dose de realidade marcada depois de tantos tombos que a vida me deu me fez ver que aquilo tudo era só provisório.

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Você também não era o tipo de cara que eu sonhei. Seu jeito desencanado nunca encaixaria com as minhas explosões tão constantes de humor. Confesso que as ligações que você nunca me fez e a sua cara de desinteresse quando eu falava sobre minha banda favorita também ajudaram a me fazer crer que, mais cedo ou mais tarde, a gente cansaria de tentar se moldar um ao outro.

Talvez tenham estes sido alguns dos motivos que fui embora. A gente espera demais. A gente acha que vai aparecer o príncipe no cavalo branco e nos levar para longe de todos os nossos problemas. E daí temos medo de quando as coisas não estão 100% encaixadinhas, como naqueles filmes de romance quando a mocinha encontra o mocinho e seus olhos não conseguem mais desviar o olhar. Medo de encarar uma nova possibilidade, medo de que as coisas não sejam tão perfeitas como nos meus romances, medo de deixar o nosso coração mostrar à razão que ele estava, mesmo que uma única vez, tomando a decisão certa.

A segunda verdade é que fui embora porque eu não aguentei a possibilidade de me machucar mais uma vez. E por causa dos meus traumas, das minhas angústias e da minha falta daquela velha “confiança no meu taco”, eu simplesmente parti. E só quando virei as costas eu percebi que eu nem queria um príncipe encantado, muito menos um cavalo branco. Que talvez eu precisasse realmente de alguém para ponderar o meu humor desordenado. Que meus planos poderiam ser encaixados em outros, desde que eu usasse um pouquinho de  vontade, e que poderíamos criar novos muito melhores, feitos a quatro mãos.

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Mas fui embora. E a partir deste momento eu tenho certeza que comecei a te amar. Talvez esta seja a parte boa na minha partida. O que ficou foi o amor, foram as lembranças daquilo que nem chegamos a fazer, foram nossos desejos conjuntos que não saíram do papel e a vida de casal perfeitamente imperfeito que teríamos juntos, mas que ficaram na minha imaginação.

Não passamos pelas brigas que talvez passaríamos. Não gritamos palavras estúpidas ditas de cabeça quente na hora da discussão. Não viramos a cara um para o outro e nem ferimos os nossos sentimentos. Não nos decepcionamos. Porque, na verdade, nós nunca existimos a ponto de passar por tudo isso.

Este foi o dia que eu comecei a te amar. Um amor puro, sem sofrimento, sem desilusão, sem nada que fizesse dele ruim. A não ser o fato de que o nosso momento não poderia fazer parte de um romance, pois nunca passou daqueles minutos que fiquei te observando para decorar seu rosto que ficaria intacto no meu mar de possibilidades imaginárias.

 

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