Nostalgia(ndo)

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Saudades do meu avô. Não sei como começar esse texto de outra forma que seja mais sincera. Saudades daquele tipo de ser humano no mundo, daquela pessoa que contava histórias da sua infância na Paraíba e via a sua chegada à São Paulo e tudo o que construiu aqui como o seu maior feito. Eu não tive tempo, nem maturidade àquela época, de admitir que eu também achava que tinha sido um grande feito. Que eu o admirava em cada detalhe, que eu o admirava como pessoa. Que eu sentiria sua falta todos os dias.

E sabe do que mais? Eu acho que o mundo tá em falta de pessoas como ele, que via grandiosidade em pequenos detalhes, que tinha orgulho de suas origens sem esconder nenhum deslize ou dificuldade, que tinha amor incondicional dentro de si, que atravessou o Brasil inteiro atrás de sonhos, de vontades, de uma nova família para formar.

Tenho medo quando vejo ao meu redor que as pessoas estão menos você, cada dia mais, desapegadas umas das outras. Que o interesse próprio os impedem de olhar para outra coisa que não seja o próprio umbigo. Que mãos sejam menos estendidas. Que sorrisos despretensiosos sejam oferecidos com menos frequência por aí. Que a individualidade está crescendo de uma forma desproporcional à capacidade das pessoas em pensarem como um grupo.

Vejo dedos apontados na cara dos outros, cheios de moralismo e achismos próprios, cheio de razões, porém, sem um conteúdo de verdade. Meu avô sim, era uma pessoa de verdade, de cabo a rabo, sem tirar nem por. Ele não defendia causas das quais não quisesse lutar. Ele não julgaria aquele que não tivesse conhecimento, e muito menos daqueles que tinha conhecimento suficiente. Ele trazia dentro de si uma energia tão gostosa para quem estivesse por perto, que era difícil conseguir se desvencilhar de suas histórias, de seus causos.

Tenho saudades de pessoas mais simples como ele era. Sem essa complexidade que querem incorporar em suas almas, construídas com esses achismos, pré achismos, e conceitos equivocados e pré formados. Preferia quem possui companhia leve, sorriso no rosto, voz mansa, porém, vontades concretas, sonhos a serem realizados e vontade de conquistá-los. Amava as lutas que sabia que podia participar. Meu avô sim, não seria desses que defendem coisas desde que fiquem longe da vida deles, desde que não os atrasem na manicure, desde que ele estivesse atrás da tela do computador ou do iphone. Ele não seria desses que passam a vida sentados atrás de um celular, vendo a vida passar sem aproveitá-la de verdade, gastando seu tempo em curtidas e compartilhadas.

Saudades, meu avô. Faz tanto tempo que você não está aqui ao meu lado que às vezes eu me perco no meio de tanta gente comum. Sua especialidade me faz falta demais para enxergar o que é importante e o que é necessário, para conseguir ver outras luzes por aí. Para parar e roteirizar uma linha tênue para o caminho dos meus sonhos. Se eu puder, algum dia, ser lembrada como lembro de você, eu sei que, enfim, minha existência aqui nessa loucura toda valeu à pena.

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