Não tenho nada de frágil

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Nasci há tantos anos que realmente não me lembro mais a contagem de quantos tempo estou por aqui. Nasci tabelada de fábrica, fadada a cumprir com todas as minhas obrigações que as pessoas à minha volta queriam me impor. Nasci em meus vestidos rosa, meu cabelo escovado e cheio de lacinhos, nasci uma princesa, uma futura rainha.

Mas a verdade é que nunca me passou pela cabeça fazer parte da realeza. Nunca quis só brincar com “coisas de meninas” ou deixar de subir na árvore na praça perto de casa. Minhas barbies eram todas superpoderosas e nunca precisaram de um Ken para ajudar a história delas a ficar mais interessante. Sorte a destas bonecas, que não ganhavam olhares tortos todas as vezes que elas admitiam que preferiam aprender a lutar karatê do que esperar um príncipe encantado no cavalo branco que pudesse lhe salvar de todos os perigos do mundo.

Nasci mulher e, só por este fato, aguentei – e venho aguentando – olhares insinuantes quando ando pela rua, mesmo que eu esteja com uma calça moletom velha e manchada. Já disse o quanto me sinto vulnerável quando preciso ficar em pé na muvuca do ônibus? E não, o medo não é de levarem minha bolsa embora. Eu tenho receio de quem se acha no direito de encostar em mim, pavor de quem acredita poder olhar pelo decote da minha blusa e achar que tudo bem se posicionar estrategicamente por trás do meu corpo.

Já disse como tenho medo de voltar para casa sozinha a noite e como é insuportável sempre que estar acompanhada de um cara para que ninguém se atreva a mexer comigo? Eu nasci mulher para não conseguir ter minha própria liberdade de andar por onde eu quiser e a hora que eu quiser? Eu nasci mulher para ter que depender de alguém mais forte fisicamente do que eu durante toda minha vida?

Quando nasci não me disseram que eu teria que provar por aí que eu sei dirigir ou administrar uma fábrica de autopeças, só porque algum idiota disse que essas coisas são para homens. Ninguém me disse que eu estudaria muito, muito mesmo, e teria que aguentar piadinhas que insinuassem que, se eu fosse muito inteligente, ficaria “para a titia”. Ninguém me disse que eu faria a mesma coisa que o meu colega ao lado no trabalho, ficaria o mesmo tempo que ele no expediente, mas teria que me conformar em ganhar menos.

Nasci mulher e parece que isso me tornou obrigada a aprender a cozinhar, a costurar, a passar e lavar a roupa e a dobrar lençóis com elástico. A verdade é que eu mal sei fritar um ovo e não faço ideia como as pessoas conseguem dobrar aqueles malditos lençóis. Eu não nasci para ficar a vida toda dentro de casa vendo meus anos passarem e, mesmo se fosse o que eu quisesse, nunca quis que isso fosse uma consequência de uma vida que não escolhi.

Eu não nasci para ser apenas um órgão reprodutor que só estará totalmente realizada quando tiver um filho. Eu até quero sim ter filhos, mas se amanhã ou depois eu mudar de ideia, não quero que as pessoas fiquem me olhando como se eu fosse uma pobre coitada. Porque eu não sou. Eu quero ser conhecida pela história que eu construí e não pelas notas que meus filhos irão tirar na escola. E para completar, eu não nasci para abrir mão do meu prazer em prol de ninguém e, assim, eu espero que, quem estiver comigo, me faça ir à lua e voltar tantas vezes forem necessárias.

Mas, por mais que eu quisesse me ver longe de arrependimentos, confesso que, pelo menos isto, eu não consegui. Me arrependo de todas as vezes que engoli a seco algumas ofensas que levei nos últimos anos. Me arrependo de todas as vezes que já me senti horrível por não ter o corpo da mulher da capa da revista. Me arrependo de não ter achado que meu cabelo era bonito o suficiente para que eu pudesse sair na rua com eles molhados. Me arrependo de nunca ter respondido à altura quando me falavam que eu não estava agindo como uma menina de família. Me arrependo de já ter chorado escondido quando a pessoa em que eu confiava havia contado todos meus segredos para a escola inteira e todo mundo achou que a errada era eu.

Me arrependo quando virei a cara para outra mulher que estava me julgando só por causa do tamanho da minha saia. Me arrependo de ter deixado de usar meu batom vermelho por algum tempo depois que me disseram que aquilo era cara de puta. Me arrependo de não ter tido coragem antes de enfrentar todos os meus medos e todos os pré-conceitos que encaro todos os dias só pelo fato de ter nascido mulher.

Sim, eu nasci mulher. E apesar de tudo, apesar de ainda ter um grande chão pela frente, apesar de ainda ver uma longa estrada pela frente até que eu possa, finalmente, ser livre de verdade para ser qualquer coisa que eu queira, apesar de tudo isso, eu não nasceria de outra maneira. Eu sou mulher. E de frágil, meu querido, eu não tenho – e nem nunca tive – absolutamente nada.


Texto meu publicado inicialmente no blog Entre Todas as Coisas.

 

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