Nada demais.

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Fica mais. Ainda está cedo.. Nem sei se este relógio de ponteiros avançados está certo. Mas agora eu quero que você fique, e não se vá nunca mais. 

Eram esses os pensamentos que rodeavam a cabeça dela naquela hora em que viu ele pegando sua carteira em cima da mesa da sala, e andando até a porta, sem nem olhar para trás. Mas, para sua aflição, não sabendo os motivos, esses pensamentos não conseguiam ser traduzidos em palavras, e foram contidos por um sentimento de que não fazia ideia que poderia ter.

Ela não era nada demais – repetia em silêncio. Qual era a chance daquele cara querer ficar um pouco mais em sua companhia se ela nem mesmo tinha mais nenhuma ideia sobre qual assunto falar. Será que daqui a pouco começariam a falar sobre a novela, ou sobre o tempo, que nem nessas conversas de elevadores? Não sabia, mas de uma coisa tinha certeza: queria que ele ficasse mais um pouco, mesmo se fosse para que eles continuassem assistindo aquele filme da sessão corujão em silêncio. 

Nunca foi do tipo de gente que consegue esconder direito o que se passa em sua cabeça, mesmo que nem sempre soubesse como expressar tanta coisa em frases que fizessem sentido aos outros. Andou até a porta para passar a tranca e, enfim, voltar à sua vidinha sem graça de expectativas frustradas, mas se surpreendeu quando percebeu que ele ainda estava parado no batente, do lado de fora, junto à roseira, só que agora olhando para ela. 

-Que foi? Pensou que eu já tivesse ido? 

-É, pensei, você saiu meio corrido..

-Eu sei, sei lá. Pensei que já fosse tarde, e como você concordou resolvi ir mesmo.

-Não, é..eu sei, tá tarde sim, mas pensei que sei lá..

-Tem muitos “sei lá” nessa conversa, não é?

-Eu sei, eu sei. Só não sei te explicar o que quero dizer, porque não faço ideia do que é que eu quero dizer. Queria que as coisas tivessem sido diferentes, acho que é isso. Não sei se estou preparada para te ver ir embora assim.

-É, eu te entendo, um pouco. Também não faço ideia do que estou pensando nesse momento, mas alguma coisa me fez parar e voltar. Bem, vamos sentar um pouco aqui na escada? Acho que posso esperar mais um pouco, se for para a gente tentar entender o que está acontecendo por aqui.

Sem demais palavras, apenas acenou que sim com a cabeça e sentou no penúltimo degrau da pequena escada que separava sua porta e o imenso jardim, onde se via parado, ao final, o carro dele. Uma coisa era certa: ele quis ir embora, mas ele quis ficar também. Será que havia um motivo racional para isso? Achava que não. Nem mesmo ela entendia o porque queria dizer um turbilhão de coisas para ele. Nunca tinha sentido nada assim, até porque esse não era nem de longe o primeiro cara que ela tivesse tido alguma coisa (apesar de, em tese, os dois nunca tenham tido nada), mas dessa vez era diferente, se sentia diferente.

Os dois eram como água e óleo, mas no silêncio era que os dois se entendiam. Sempre foram bons ouvintes, e nunca bons falantes, mas havia muitas palavras contidas ali, e como ele mesmo havia dito, muitos “sei lá” que, no fundo, tinham muito significado. Mas era assim que as coisas funcionavam entre eles. Às vezes a gente precisa mesmo de um tempo para nos permitir a não pensar, de apenas reagir, e agir, e nos abster de razões, de motivos concretos e justificáveis.

Então, permitindo-se ser irracional pelo menos uma vez na vida, apenas olhou para ele. Não disse nada. Mas ele entendeu o recado. Levemente tocou em suas mãos e ali ficaram sentados, eles e o silêncio, testemunhas de tudo o que podia ou não acontecer, mas que não importava naquele momento, porque aquele momento era o único em que finalmente ela não se sentiu “nada demais”, porque realmente, para ele, ela era muito, muito mais do que ele pensou em encontrar. 

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