Invisibilidade consentida.

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Fico aqui, do meu canto, apenas observando essa muvuca por aí ao seu redor. Você não me vê, mas eu te vejo todos os dias, todos os minutos. Na verdade, eu procuro por você em cada momento do meu dia, em cada risada boba de uma piada sem graça, em cada olhar despreocupado para uma direção qualquer, em cada resposta avoada para minhas perguntas propositais para testar se você está prestando atenção em mim. Eu te vejo em mim, te vejo ao meu lado, te vejo em tudo.

Mas você não me vê, não me enxerga. Para você eu sou invisível. E do que me satisfaz estar visivelmente perfeita e adequadas aos olhos dos outros, se a única pessoa para quem meus olhos estão voltados não consegue me enxergar, mesmo que a um palmo de distância.

Acabei adotando essa carapuça que você me fez vestir. Me acostumei à andar por aí, observar o mundo lá fora, conviver com essa parte vazia que você deixou aqui dentro, e aguardar pacientemente pelos dias que se passam, e voam, e como voam, mas apenas nessa realidade aos meus olhos. Aqui dentro passa tudo ao mínimo tempo, em uma lentidão que chega a ser brusca, pesada e densa. E graças à falta que sinto de sua presença, dos seus olhares desconfiados encontrando os meus no meio da multidão apressada e sem certeza do lugar onde quer chegar. Ao contrário de mim, que já sou tão convicta de meu desejo, que parece estar tatuado sob a pele, eternizado na minha essência.

Mas não pense você que não me aproveitei várias vezes dessa minha invisibilidade. Foram incontáveis as vezes que senti a necessidade de fugir e encontrar um universo particular onde eu pudesse conviver apenas com meus mais íntimos desejos e segredos mais bem guardados. E para essa fuga não precisei de muito: apenas de aprender a incorporar o personagem que me foi dado, de ser invisível também aos olhos dos outros. Até porque, não vejo nenhum sentido estar em foco por qualquer outra pessoa se você continua desconhecendo dessa minha ânsia em que me veja.

E assim continuamos. Você aí, procurando algo que você nem sabe o que, mas que sabe estar pendente para que haja uma completude não justificada na sua vida. E eu daqui, esperando que você comece a enxergar o que realmente reluz e importa para que, enfim, eu pudesse sair dessa sombra em que você (mesmo inconscientemente), me colocou.

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