Entre copos

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“E lá estava eu. Sentada em frente ao computador sem saber ao certo o que fazer. Discretamente penteada e maquiada e me sentindo um pouco estranha em fazer isso. Afinal, será que até para conhecer alguém pela webcam a gente precisa aparecer em nosso perfeito estado? Ah, se eu soubesse ou tivesse uma resposta definida para isso antes…

Nunca fui do tipo de garota com grande facilidade para conhecer novos caras. Na vida noturna das baladas eu, definitivamente, não era aquela que ficava dançando no centro da pista e atraindo todos os olhares. Preferia ficar na companhia do meu drink de nome complicado enquanto dava uma ou outra risada das histórias das minhas amigas.

E agora lá eu estava, prestes a “conhecer” – vale considerar uma apresentação formal? – um tal gringo finlandês que, coincidentemente, deu match comigo no Tinder. Ah, essa parte não tinha contado né? E talvez agora você não se interesse mais pela história, já que existe esse insistente tabú em encontrar alguém em um aplicativo de relacionamentos. Mas, se você ainda estiver aqui, devo confessar que também não sou – ou era, não sei – do tipo de garota que dá likes nas outras pessoas por aí. Mas essa falta de gente interessante e de papo bacana que se estenda por mais de dez minutos faz com que a gente faça dessas coisas. O que que custa, certo?

E na verdade, era um cara bem bacana, apesar de morar em outro continente. Depois de alguns dias conversando madrugada afora, não tive como responder não à solicitação de amizade no Skype e ao “I really wanted to meet you”.

E lá estava. Eu, o computador, e minha imagem na webcam esperando que o finlandês aparecesse também. Mas se passaram 10, 15, 30 minutos e nada. Esse fuso horário tem dessas coisas. Eu deveria estar dormindo e ele deveria estar saindo para o trabalho. Começamos bem. Só que não.

Mas, então, uma ideia genial surgiu, daquelas mirabolantes que a gente tem do nada nos momentos de maior tensão. Se eu tomasse uns golinhos de conhaque, talvez eu pudesse disfarçar esse nervosismo e essa cara de quem mal conseguiu dormir esperando que não me aparecesse um tiozão tarado do outro lado.

Gole aqui, gole ali. A garrafa do conhaque acabou. Estava na metade e eu nem me lembrava? Levantei e fui fuçar na geladeira. Encontrei um vinho branco que estava guardando para quando eu resolvesse, enfim, cozinhar o peixe que estava no congelador.

Para minha surpresa, quando voltei, lá estava ele. E o melhor de tudo: da exata forma que tinha visto nas fotos do facebook. Ele era realmente muito bonito e eu não sabia ao certo o que falar na hora que o vi. Travei. Travei da maneira mais bizarra que poderia acontecer. Então, entre uma tentativa e outra de me soltar, entre um gole e outro do vinho, as coisas pareciam estar melhorando e eu parecia estar, enfim, me deixando levar pelo papel da mulher avassaladora.

Minha cabeça doía. Abri os olhos sem entender direito o que estava acontecendo. Há um minuto atrás eu estava conversando com o finlandês bonitão pela webcam, e agora estou deitada no sofá da sala. Passei a mão na minha testa e vi que ganhei um galo gigante. Não me lembrava de nada. Absolutamente nada. E o desespero começou a bater quando percebi que a webcam ainda estava ligada, e havia dezenas de mensagens do finlandês em meu celular perguntando se eu estava bem.

Levantei e fui pela espreita da sala virar a webcam para o outro lado e poder, desesperadamente, terminar aquela chamada do inferno. O gringo ainda estava lá. Sem saber direito o que estava acontecendo, avisei que estava bem, e me desculpei pelo nem-sei-o-quê.

Ele, então, começou a contar sobre o nosso primeiro contato e o que raios tinha acontecido. Aparentemente, todos os copos de conhaque e vinho haviam funcionado de uma vez só. Comecei a conversar animadamente com ele. Tinha ficado muito, muito empolgada ao saber que ele, assim como eu, também falava italiano. Comecei a cantar algumas músicas em italiano. Levantei para buscar um microfone para melhorar a minha interpretação. Estava eu, a webcam, um microfone, e tanto goró na cabeça que me fez dançar e rodopiar na sala ao som de Eros Ramazzotti, até que eu caísse e batesse a cabeça na cadeira. Depois disso, ele disse que houve muita gritaria e um longo silêncio que o fez pensar sobre a remota possibilidade que eu tivesse morrido.

Perfeito. Consegui estragar o primeiro affair (eu sei que é uma palavra meio idiota, mas é o que tem) sem nem mesmo conhecer o cara pessoalmente, com direito a um oceano inteiro nos separando.

Notadamente fiquei envergonhada. Pedi mil desculpas e disse que se ele não quisesse mais falar comigo, eu entenderia perfeitamente. Ele riu, uma risada gostosa e sincera. Após a risada – e a minha clara expressão de interrogação – ele me disse o seguinte (tradução livre, ok?): “oras, obviamente não vou deixar de falar com você por causa disso. Aliás, fico feliz e orgulhoso por ter encontrado uma brasileira que beba mais do que um filandês”.

É. Às vezes a gente impressiona da forma mais estranha possível mesmo.”

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