Crônica: “A Fuga”

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Não sabia bem o que fazer e nem para onde ir. Pegou a chave o carro que seus pais lhe deram e assim, de repente, no meio da noite eterna e agitada por seus próprios pensamentos, saiu pela porta da frente da casa.

Não queria fazer nenhum barulho, não queria acordar seus pais, mas o fato é que nem ela conseguia ouvir o som de seus passos, o barulho da sua vida lá fora a estava ensurdecendo aos poucos.

Não, não havia acontecido nada que pudesse ser considerado anormal para que ela tomasse esse rumo noturno descabido. Estava mergulhada em um mundo só seu, sua cabeça rodava muito e sua visão estava um pouco turva.

Chegou ao carro, e pensou “vou ligar e engatar a primeira bem rápido pra poder sair correndo o mais rápido possível”. Tinha medo que se demorasse alguém em sua casa pudesse ouvir e tentar impedi-la, ou pior, fazer qualquer pergunta que exigisse uma resposta, no mínimo, coerente.

Mas seguir para onde, se nem à ela aquilo tudo fazia sentido ou fosse digno de qualquer rastro racional?

Então assim o fez, ligou o carro, fechou os olhos,  engatou a primeira marcha e acelerou. Talvez tenha até saído com os pneus cantando, mas agora não mais importava. Nada iria detê-la a não se sabe o quê.

Enquanto acelerava, tentava refletir sobre os reais motivos que estava fazendo isto. Eram tantas coisas em sua cabeça, tantas perguntas sem respostas, tantas pressões que sofria, tantas escolhas sem solução que ela sentia que estava ficando louca! E talvez de fato estivesse. Ou apenas precisava de um tempo de tudo aquilo, um tempo dela mesma – ou da pessoa que ela tinha se tornado: aleatória no meio da multidão tão similar, acostumada a agir previsivilmente.

Pensou nas escolhas que deixou de fazer, nos amigos que perdeu, nos sonhos que tinha abdicado, e tudo isso pareceu se tornar um monstro horrível em sua cabeça.  Será que só ela era o alvo daquele monstro? Aparentemente sim, já que todas as outras pessoas aparentavam estar felizes – ou apenas conformadas – sobre os rumos que suas vidas estavam tomando. Ou era tudo aparência? E no fundo todos nós acordamos todos os dias para enfrentar os monstros que nós mesmos criamos?

Se sentia sufocada cada vez que alguém lhe cobrava uma resposta ou uma escolha. Não era bem assim que as coisas deveriam rumar, e agora estava perdida.

O sol aparecia logo atrás de seu carro, em uma fria manhã de julho. Não tinha percebido que havia dirigido por tantas horas. Que horas tinha saído de casa mesmo?

Finalmente o destino pareceu lhe dar uma resposta, ou pelo menos uma solução momentânea. Estacionou o carro de qualquer jeito, era a única lá. Tirou os sapatos, pois, queria poder sentir a areia tocando seus pés.
Andou, devagar, encarando o oceano imenso a sua frente. Pensou em cada detalhe de tudo que havia passado que tivesse a carregado até lá.

Ajoelhou-se, então, com o rosto coberto pelas mãos frias, e começou a chorar, deixando, pela primeira vez, que seu corpo mostrasse que ela não era sempre durona, e que precisava falhar e duvidar das suas escolhas para que saísse de lá, daquela praia vazia, com a certeza do que estava fazendo o que tinha que ser feito.

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