A história de uma menina qualquer

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Não tinha nada demais aquela menina. Passou metade da vida ouvindo isso e a outra metade já acreditando naquela ideia.

Talvez não tivesse mesmo nada que trouxesse uma diferença. Nunca foi bonita, nem tão inteligente assim. Era tímida e um pouco desajeitada, e não sabia falar olhando nos olhos dos outros. Não sabia exatamente o porquê disso tudo, mas sabia somente que era assim que as coisas eram pra ela, e acostumada a estar sempre no segundo plano para as pessoas, acabou se acostumando a andar nas sombras.

É difícil sair desta posição quando todos os outros à sua volta esperam que você seja brilhante, que seja linda e carismática sempre, e concorde com todas as besteiras que dizem por aí. Ela não via motivos para agir dessa forma, então ali ficou, ali nas sombras, onde era o seu lugar.

Diziam que ela era estranha, outros diziam que ela só não era simpática, mas a verdade é que ela só não se encaixava nos padrões, e, pelo que parecia, esse era o maior pecado que poderia cometer – essa coisa de não fazer questão de pelo menos se encaixar em um grupo por aí. Ela queria encontrar alguém com quem quisesse conversar dos seus anseios, das suas vontades, com quem pudesse descobrir o mundo todo com ela, mas as pessoas, no geral, ignoravam sua presença ou suas ideias, e estavam sempre apressadas demais para ouvir o que ela tinha a dizer.

Pensava, então, que esse era  o mau do mundo, essa coisa de sempre olhar para suas próprias ambições e não relevar muito o que os outros achavam, ou pensavam ou queriam. Ela era uma menina das sombras, pensava assim, e tinha praticamente se convencido disso, até que um dia, então, andando na rua, parou e olhou ao seu redor.

Tantas pessoas iguais, correndo pra lá e pra cá com suas pastas e sapatos gastos, olhando para todos os lados, mas não enxergando nada ao seu redor. Viu, então, que todos tinham a mesma cor, que todos tinham aquele cinza estampado nos rostos, que todos estavam ali conformados com seu papel – mesmo que no fundo, tivesse esperado outra coisa da vida.

Viu em seu semblante sereno e sedento por boas lembranças uma cor abrilhantada, e percebeu, então, pela primeira vez, que tinha sim muita coisa além do esperado, que tinha dentro dela algo especial, um prêmio: ela era diferente, ela era como uma surpresa no meio da semana. Ela podia não ser a mais bonita, a mais ajeitada, a mais vaidosa, mas ela era formada por sonhos, por vontades de coisas que nunca teve, e era de tudo isso que ela se compunha. De uma essência que não era facilmente achada por aí.

Então, continuou caminhando, caminhou para fora daquela sombra que a perseguiu por toda a vida, e, enfim, sorriu.

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