Antes que se vá.

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É difícil sentar nessa varanda e encarar esse jardim sem você aqui. A varanda está mais fria do que nunca e agora seus braços não estão aqui para me aquecer. No jardim, vejo nossas roseiras já sem flores que nos testemunhavam em nossas besteiras que nos faziam dar mais risada.

É difícil acordar e você não estar ali ao meu lado me olhando com os olhos apertados de sono, me puxando para perto do corpo e passando os dendos em meus cabelos emaranhados. Palavras sempre foram vãs quando se tratava de explicar o que havia entre nós. Até hoje não sei explicar, mas nem é de minha pretensão entender o que está acima de palavras comuns criadas por homens comuns.

E felizmente, você me aceitou, por pouco tempo, mas aceitou. Relevou minhas implicâncias com sua roupa suja espalhada pelo quarto, com sua mania de deixar a televisão ligada e dormir em cima do controle remoto e com seu gosto musical tão diferente do meu. Como água e óleo o mundo nos fez nos encontrar para que provássemos que nem somente de semelhança boas histórias podem ser formadas. E nós conseguimos e cumprimos nosso papel. Você me fez enxergar além de minha própria visão e daquilo que podia ver para entender que existem coisas pequenas demais para que interferissem em nós.

E assim nós fomos, nós somos, e assim você se foi. Porque você é superior demais para pobres estudantes da vida. Sua completude me mostrou que chegou a vez de que eu provasse ter capacidade de passar nessa prova, de fazer também pelos outros o que você fez por mim.

E fico aqui, encarando essa varanda vazia e fria e sem flores. Com a lâmpada queimada que você nunca chegou a trocar, e agora nem trocará mais. Com o silêncio me trazendo em sussurros as nossas risadas e as nossas conversas intermináveis, e também o nosso silêncio, que me significava muito mais do que qualquer conhecimento filosófico que pude aprender.

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